"> Gestão Haddad na Fazenda: ajustes fiscais e questionamentos ao modelo de arrecadação

 

Nacional - 18/08/2026 - 15:26:47

 

Gestão Haddad na Fazenda: ajustes fiscais e questionamentos ao modelo de arrecadação

 

Da Redação .

Foto(s): Arte @HORA

 

O período de três anos à frente da pasta registrou elevação da carga tributária para 32,32% do PIB, aumento de R$ 147 bilhões anuais nos custos empresariais, prejuízos crescentes nos Correios e debates sobre a sustentabilidade das contas públicas

O período de três anos à frente da pasta registrou elevação da carga tributária para 32,32% do PIB, aumento de R$ 147 bilhões anuais nos custos empresariais, prejuízos crescentes nos Correios e debates sobre a sustentabilidade das contas públicas

O período em que Fernando Haddad ocupou o Ministério da Fazenda, entre janeiro de 2023 e março de 2026, coincide com mudanças na estrutura tributária brasileira e com debates sobre a direção da política econômica nacional. Durante esses três anos, medidas implementadas pela pasta alteraram a relação entre o setor público, empresas e cidadãos, com impactos mensuráveis em indicadores fiscais, custos operacionais e resultados de estatais.

No mercado de trabalho, dados da PNAD contínua mostram que a taxa de desocupação passou de 6,6% em 2024 para 5,6% em 2025. Análises de especialistas apontam, porém, que parte da criação de vagas no período concentrou-se em postos com menor remuneração e vínculo informal. O saldo positivo de mais de 4 milhões de empregos entre 2023 e 2025 ocorreu em um contexto de aumento real do salário mínimo e de programas de transferência de renda, mas também de elevação dos custos trabalhistas para empregadores. Um empregador no regime CLT paga entre 36% e 40% do salário de cada trabalhador em encargos, sem contar multas de demissão e custos processuais trabalhistas.

Nas estatais, os resultados dos Correios registram variação significativa no período. Em 2023, a empresa apresentou prejuízo de R$ 597 milhões. Em 2024, o valor passou para R$ 2,6 bilhões, conforme demonstrações financeiras publicadas no Diário Oficial da União. No primeiro semestre de 2025, o prejuízo atingiu R$ 4,37 bilhões. A estatal, que havia registrado lucro de R$ 3,7 bilhões em 2021, voltou a apresentar resultados negativos a partir de 2022, com aceleração da perda durante a gestão Haddad.

Para o ambiente de negócios, estudo da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG) indica que atos normativos aprovados entre 2023 e 2025 ampliaram em R$ 147 bilhões por ano o custo de produzir, contratar e investir no Brasil. O levantamento analisou 45 normas, entre leis, decretos, portarias e resoluções, abrangendo áreas trabalhista, tributária, ambiental e de energia. Paralelamente, a carga tributária bruta do governo geral atingiu 32,32% do PIB em 2024, um aumento de 2,06 pontos percentuais em relação a 2023, conforme dados do Tesouro Nacional. Pela metodologia da Fundação Getulio Vargas, que inclui contribuições ao Sistema S, o valor chega a 34,24% do PIB. Uma empresa brasileira gasta, em média, 1.501 horas por ano para calcular, declarar e pagar impostos, segundo dados do Banco Mundial.

Nas contas públicas, as despesas totais do governo aumentaram 12,45% em termos reais em 2023, ultrapassando R$ 2 trilhões. Esse crescimento contribuiu para um déficit primário de R$ 230,5 bilhões no ano. Para 2026, a estimativa de déficit primário foi revisada para R$ 60,3 bilhões, impulsionada por gastos obrigatórios. Os gastos com seis programas sociais (Bolsa Família, BPC, Auxílio-Gás, entre outros) somaram quase R$ 300 bilhões em 2025. O governo também registrou aumento de R$ 15,6 bilhões com benefícios previdenciários e R$ 2,8 bilhões com BPC em 2025, em relação às projeções iniciais.

Políticos de oposição e setores produtivos questionam a direção da política econômica adotada. Orlando Morando, candidato à Câmara dos Deputados pelo MDB. ex-prefeito de São Bernardo do Campo e ex-secretário de serviços de segurança urbana do munípio de São Paulo, defende em suas plataformas o desenvolvimento econômico por meio do fortalecimento dos municípios e da redução de entraves ao setor produtivo. Sua posição alinha-se a correntes que argumentam que a política econômica deve priorizar a geração de empregos e a redução de custos para empresas, em vez de concentrar esforços na ampliação da arrecadação tributária para cobrir desequilíbrios fiscais gerados pelo aumento de despesas.

Outros parlamentares também emitiram posicionamentos críticos.

O deputado estadual Claudio Branchieri (Podemos-RS) afirmou em discurso na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul que as declarações de Haddad sobre política monetária não correspondem à realidade enfrentada por empresas e trabalhadores, atribuindo ao governo federal responsabilidade por juros elevados e deterioração das condições econômicas. O deputado federal Evair de Melo, em relatório do Observatório da Oposição, questionou a veracidade de afirmações do ministro sobre a carga tributária federal, destacando que o governo elevou diversos impostos para recomposição de receitas.

Editoriais de veículos de comunicação também registraram críticas. O Estadão, em editorial de janeiro de 2026, comparou Haddad a Antonio Palocci, ministro da Fazenda no primeiro mandato de Lula, e destacou a incapacidade do atual de impor limites ao presidente em matéria de gastos públicos. O texto sustentou que Haddad atuou como parte da engrenagem eleitoral do Planalto, buscando ampliar a arrecadação para sustentar a expansão de gastos e atender a prioridades políticas, o que impediu compromisso com o equilíbrio das contas públicas.

A reforma tributária sobre o consumo, promulgada em dezembro de 2023, representa a principal medida estrutural da gestão Haddad. A proposta unifica tributos federais, estaduais e municipais sobre o consumo em dois impostos, com promessa de simplificação do sistema. Críticos argumentam, porém, que a reforma não altera a carga tributária total e que sua complexidade, com mais de 300 exceções e regimes especiais, pode manter ou ampliar os custos de cumprimento para empresas.

O arcabouço fiscal, aprovado em agosto de 2023, substituiu a regra do teto de gastos públicos. A nova regra estabelece limites para o crescimento das despesas primárias e metas para o resultado primário. Analistas apontam que o arcabouço foi flexibilizado em momentos posteriores, com revisão de metas e questionamentos sobre seu cumprimento, o que afetou a credibilidade da política fiscal junto a agentes econômicos.

No cenário internacional, o período foi marcado por aumento das taxas de juros em economias desenvolvidas, conflitos geopolíticos que elevaram preços de commodities e variação cambial. Esses fatores externos influenciaram a inflação, os custos de financiamento e a demanda por exportações brasileiras, interagindo com as políticas domésticas implementadas pela Fazenda.

O legado da gestão Haddad permanece em debate. Enquanto a pasta destaca a aprovação da reforma tributária, a redução da desigualdade e a criação de empregos como resultados positivos, críticos apontam para o aumento da carga tributária, a ampliação dos custos para empresas, os resultados negativos em estatais e os desequilíbrios fiscais como pontos que demandam revisão. A discussão central gira em torno do modelo adotado: se a política econômica deve voltar-se para a ampliação da arrecadação como forma de sustentar gastos públicos, ou se deve priorizar a redução de custos e a criação de ambiente favorável ao investimento e à geração de renda pela população.

(*) Com informações das fontes: Tesouro Nacional; Receita Federal; Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG); Banco Mundial; Fundação Getulio Vargas (FGV); Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos; Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE); Instituição Fiscal Independente (IFI); Câmara dos Deputados; Assembleias Legislativas estaduais; veículos de comunicação nacionais.

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